DE PARIS A MOSSORÓ

José Maurício Guimarães,
V.'.M.'. da Loja Maçônica de Pesquisas Quatuor Coronati



Todos entram neste mundo com alguma missão. O mais humilde dos trabalhadores, injustamente relegado às classes sociais menos favorecidas, tem uma missão.

Missão é obrigação, é compromisso e dever de cumprirmos determinada função conferida às nossas capacitações. “Quem não tem competência, não se estabeleça” – diz a sabedoria dos portugueses.

Há missões às quais nos obrigamos voluntariamente. Por exemplo, aquelas que assumimos de livre e espontânea vontade junto a organizações, ordens iniciáticas, religiões, etc. Neste caso são deveres de consciência. Mas, há missões às quais somos submetidos em virtude de deveres de consciência somados a circunstâncias históricas. Exemplo bastante conhecido é o de Jacques de Molay, "último" Grão-Mestre da Ordem dos Templários (1292-1314). Outras missões, nos anteriores 175 anos da Ordem - de Hugo de Payns (1118-1136) a Thibaud Gaudin (1291-1292) - não ficaram tão famosas quanto Jacques de Molay; não porque ele tenha sido “o último”, mas porque de Molay assumiu na própria carne o peso e o preço de suas convicções: foi queimado vivo na Ile de la Cité de Paris no dia 11 de março de 1313. Essa violência não foi perpetrada conta a pessoa de Jacques de Molay, mas contra os princípios que ele representava. Oriundo de uma família de Borgonha, Jacques de Molay, não era um insurrecto nem um panfletário imbecil envolvido com os "diz-que-me-disse" da política palaciana e clerical. Modernos estudiosos chegam a conclusões de que ele era um homem culto e gentil, mais interessado no aspecto filosófico do que na ambição material ou nas guerras de pilhagem. De Molay não era "candidato" a prefeito, nem a deputado. Nem ele, nem os Templários que fugiram para a Escócia e Portugal (depois para a América) ofereceram reação insurrecional contra as atrocidades de Felipe o Belo e da conivência acovardada do papa Clemente V. A reação demorou mais de 450 anos e finalmente aconteceu com as revoluções Americana de 1776 e Francesa em 1789.

Da mesma forma, quando levaram Giordano Bruno para a fogueira no Campo dei Fiori de Roma, (17 de fevereiro de 1600) não queimaram um filósofo, cientista, escritor, teólogo, professor das grandes Universidades da Europa daquele tempo e padre da Ordem Dominicana. Estavam arrancando a língua do livre pensamento e mandando um aviso claro para todas as outras religiões, Ordens e livres pensadores. Não havia mecanismos através dos quais os livres pensadores, Ordens as outras religiões pudessem lutar pela REFORMA do ordenamento jurídico e independência do poder secular diante do Direito Canônico. Eram as leis da época, “dura lex sed lex”. Além disso, os tribunais não eram livres para julgar e decidir. Eram pagos pelo rei e a balança cega da justiça pendia sempre em direção ao ouro e ao incenso.

Entre essas duas execuções - Jacques de Molay e Giordano Bruno – passaram-se quase 300 anos e nada ainda havia mudado no Campo dei Fiori. Nem Giordano, nem seus correligionários esboçaram reações sanguinolentas. Recolheram-se ao estudo aprofundado e à formação de novas mentalidades mediante o estudo, a pesquisa e o conhecimento. A resposta veio com a eclosão do Iluminismo que varreu a Europa e os Estados Unidos de ponta a ponta entre o final do século XVII e a primeira metade do século XVIII, na sequência da revolução científica e quando, na Inglaterra, em 1688, a influência católica foi definitivamente afastada do poder político.

Mais 300 anos se passaram e... chegamos ao século XX. Aconteceram os primeiros saltos tecnológicos como o desenvolvimento da aviação e do automóvel. Foi também o início da chamada arte moderna e os movimentos culturais pós-Romantismo. Todavia, as “nações democráticas” hesitaram em estender o privilégio de voto a todos os adultos. As mulheres (sufragistas) ainda realizavam passeatas pelo voto feminino em Nova York, no ano de 1912! As primeiras feministas encontraram nos ideais Iluministas de igualdade e liberdade a força e fundamentação de suas exigências. E, no Brasil, só no ano de 1932, na cidade de Mossoró, uma indígena do tronco linguístico tupi, Celina Guimarães Vianna, foi a primeira mulher a depositar o voto na urna. Apesar de tudo ter parecido tão natural aqui pelas "bandas do sul, debaixo dum céu de anil", não percebíamos a idade da pedra lascada em que nos encontrávamos: no Brasil - apesar da informática, dos bancos eletrônicos, da evolução do crime organizado e das mirabolantes ações diplomáticas “dos caras” - as mulheres votam há menos de um século, ou seja – Prudente de Moraes, Campos Salles, Rodrigues Alves, Affonso Penna, Nilo Peçanha, Hermes Fonseca, Wenceslau Braz, Rodrigues Alves, Delfim Moreira, Epitácio Pessoa, Arthur Bernardes e Washington Luís foram instalados no poder pela decisão patriarcal dos machos; "pagés", "coronéis" e "caciques".

Todos esses fatos e datas – que reconheço serem maçantes – são citados para demonstrar apenas uma coisa: o processo de conquista política é demorado, não podetrocar os pés pelas mãos nemcolocar a carroça na frente dos burros”. (Entendam-se pés, mãos e burros no sentido figurado e literal.) Se almejarmos mudanças com "M" Maiúsculo, temos que nos instruir primeiro. Há de se fundarem Escolas (em sentido amplo), centros de Pesquisas e atividades de estímulo ao pensamento que possam arejar o espírito da juventude, acordar os velhos e convocá-los - todos - para a construção do mundo novo, "Novus Ordo Seclorum", a Nova Ordem dos Séculos.

Mudar um cacique por outro, não resolve nada. Precisamos eliminar os “caciquismo” e formar novos líderes entre aqueles que estão acordados para a realidade política e social. Em todos os corredores do poder.

E, para terminar:

“... neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora, milhões de desesperados, homens, mulheres e crianças, vítimas de um sistema que tortura pessoas e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: Não se desesperem! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia e da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Lutem pela liberdade! Em nome da democracia, usemos esse poder. Unamo-nos por um mundo novo que assegure a todos o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. É pela falsa promessa de tais coisas que os desalmados sobem ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância e à prepotência. Onde quer que vocês se encontrem, levantem os olhos! O sol há de romper as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrar num mundo novo. A alma do homem ganhará asas e começará a voar para o arco-íris e para a luz da esperança. Ergam os olhos, ergam os olhos!” (adaptação de “O Último Discurso” de Charles Chaplin no filme “O Grande Ditador”).


 

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