A quem interessam os clones?

Décio Luiz Gazzoni
O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Homepage: www.gazzoni.pop.com.br



Afinal, a quem interessa a produção de clones? Temos algum benefício social ou econômico? O artigo científico publicado no primeiro semestre deste ano, e fartamente explorado pela imprensa, na realidade não é um achado tirado da cartola de algum cientista louco. Antes disto, é o resultado da contínua colocação de degraus de conhecimento, na grande escalada tecnológica que o mundo vivencia. Sem qualquer demérito para o experimento dos pesquisadores do Reino Unido, as contribuições para o seu sucesso foram provenientes de diversas partes do Mundo, inclusive do Brasil.

Os clones brasileiros
Exato, aqui mesmo no Brasil, um experimento em tudo similar ao sucesso obtido com a ovelha Dolly estava em andamento no Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Embrapa, abortado por problemas burocráticos, e, portanto, extra-ciência. Não fora a dificuldade de liberação de recursos do Governo Federal e poderia estar o Brasil na manchete da imprensa mundial, no centro da controvérsia sobre os clones. Recuperado do problema burocrático, o Cenargen envereda novamente pela trilha do domínio da técnica de clonagem animal, cujo bezerro deverá ser parido este ano. A Embrapa utiliza uma técnica com uma variante em relação aos pesquisadores britânicos, valendo-se de células embrionários ao invés de retirá-las da glândula mamária. Mas, pergunta o leigo - e pergunta o empresário rural - quais os benefícios decorrentes desta pesquisa?

Para que servem os clones?
Liminarmente, é importante referir que a polêmica clonagem de seres humanos parece estar superada no momento, pois 191 nações soberanas (das 194 existentes no Mundo) referendaram o manifesto da Organização Mundial da Saúde que condena qualquer iniciativa neste sentido, e estão adaptando suas legislações para impedir o desenvolvimento destes experimentos. No campo da preservação, facilita-se a multiplicação de espécimes de raças ou espécies em extinção, como é o caso do boi crioulo lageano e da ovelha crioula, dos pagos do Sul; do cavalo selvagem do Norte do Brasil, ou de seu primo pantaneiro; o porco piau e outros animais domésticos. Porém, entre os animais selvagens, a técnica também se afigura como uma tábua de salvação para espécies como o lobo guará, a gralha azul, a siriema e outros, conforme citam entusiasticamente os pesquisadores do Cenargen.

Ganhando dinheiro com clones
No campo econômico, a melhoria tecnológica será a grande beneficiada, pela constante elevação da produtividade e da qualidade dos rebanhos, em especial no tocante à ganho de peso, precocidade, produção de leite, couro e de peles. Na área ambiental, a melhoria de microrganismos para a degradação biológica de resíduos agrícolas ou industriais. Os cacauais da Bahia estão sendo salvos da "vassoura de bruxa" por enxertia com gemas de clones resistentes.

No limiar entre o campo econômico e a área de saúde situam-se os "implantes" de genes que codificam para alguma substância, como hormônios ou enzimas, que podem ser utilizados no tratamento de doenças congênitas ou adquiridas durante a vida. Descortina-se assim um novo campo de expansão tecnológica, que vai permitir um salto de patamar tecnológico, que, ao mesmo tempo também é um grande desafio, porque, em alguns anos, estabelecerá um novo conjunto de parâmetros para a manutenção da competitividade em um mercado globalizado, gerando a necessidade de permanente atualização de nosso produtor aos avanços da ciência.