A re-orientação da política francesa
e os agronegócios brasileiros


Décio Luiz Gazzoni
O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Homepage: www.gazzoni.pop.com.br



A vinculação entre diretrizes políticas e negócios comerciais está cada vez mais estreita. Examine-se os casos das eleições parlamentares inglesa e francesa. Embora o eleitorado tenha votado com muita similaridade ideológica, as conseqüências serão completamente diversas. No Reino Unido, a vitória da 'esquerda' e a ascensão de Tony Blair ao cargo de primeiro ministro não alterou a condução da política de integração à União Européia e o cumprimento dos compromissos firmados com a Organização Mundial do Comércio. A concessão de independência ao Banco da Inglaterra (o Banco Central inglês) indica a busca de uma solução para a moeda única européia, base da integração comercial e de serviços. Para o inglês comum, e em especial para os homens de negócios britânicos, não foram percebidas alterações na política governamental.


A herança do "tatcherismo"
O importante no caso da Inglaterra é que o "trabalho sujo" já havia sido feito pelos conservadores, efetuando as reformas de base, adequando as políticas fiscais, tributárias e previdenciárias, privatizando empresas governamentais, retomando um ciclo de crescimento da economia sem precedentes na década, e sem similar na União Européia, com um dos mais baixos índices de desemprego. Então, porque John Major perdeu a eleição, mesmo com todos os indicadores sócio econômicos a seu favor? Pelo desgaste do prolongado período de poder e pelas seqüelas deixadas pelas reformas.

O desafio para a França
A França vive situação antípoda. Historicamente batalhando pela liderança política da UE com a Alemanha, não tem apresentado agressividade de iniciativas. e a vitória da 'esquerda' francesa acaba por reforçar o marco alemão como a grande moeda forte da Europa e a Alemanha como o país líder da transição para a integração. Jacques Chirac antecipou a convocação das eleições parlamentares, pensando em reforçar sua base no congresso a fim de enfrentar as reformas necessárias à integração comercial e econômica na Europa e no Mundo. Cometeu um enorme erro de avaliação, pois a vitória das 'esquerdas' coloca um grande ponto de interrogação sobre a capacidade da França de integrar-se ao mundo moderno.

A busca do "pleno emprego"
"O discurso de Lionel Jospin, líder francês, foi a antítese das propostas de Chirac, para atingir o mesmo objetivo. Atribuiu o elevado índice de desemprego da França ao processo de globalização; prometeu a manutenção do "welfare state" e defendeu o fim do processo de privatizações, acenando com a estatização de alguns setores. Ambos tinham um único ponto em comum: prometiam reduzir o desemprego. É nestes pontos que os agronegócios brasileiros podem ser fortemente afetados, como exposto:

1. Globalização. A entrada na contramão do processo de globalização, com a França adotando postura de retração comercial e aumento do protecionismo, fecha algumas portas importantes aos produtos brasileiros, sejam produtos primários ou transformados. Pode ocorrer a tentação de retomada do processo de substituição de importações, sem levar em consideração seu custo econômico, reduzindo algumas oportunidades essenciais para o Brasil.

2. Welfare state. Os orçamentos dos países europeus não suportam mais a manutenção dos subsídios aos três grandes sistemas: saúde, previdência e agricultura; por um lado porque as despesas vem crescendo exponencialmente, e por outro porque a pressão tributária atingiu o limite, e compromete a competitividade da economia e a popularidade dos políticos. Ultrapassá-la levaria às seguintes conseqüências:
a. O risco da sonegação passa a ser compensador, diminuindo a arrecadação total - efeito inverso ao pretendido;
b. A sociedade não suporta novas taxas e aumento de alíquotas
c. Recursos destinados a novos investimentos, expansão da economia e novos empreendimentos passam a ser direcionados para o custeio de atividades sem repercussão econômica direta.

A redução da atividade econômica reduz também o intercâmbio comercial e as oportunidades de negócios para o Brasil. A França é uma porta importante de entrada de produtos brasileiros na Europa, e a redução de suas compras obrigará o Brasil a ampliar sua participação em outros mercados, para a manutenção da escala de comércio continental.

3. Subsídios agrícolas. O ponto mais perigoso é o não cumprimento do compromisso de retirada gradual dos subsídios à agricultura. O discurso eleitoral apontou explicitamente este caminho, para garantir o voto das comunidades do interior, viciadas em subsídios. A França é o país europeu que mais fortemente subsidia sua agropecuária, gerando uma falsa competitividade de seus produtos. O descumprimento deste ponto fundamental do acordo comercial conduzirá, num primeiro instante, à denúncia da França e a sanções por parte da OMC. No entanto, a médio prazo, a necessidade de concessões por razões políticas, podem tornar letra morta o acordo duramente negociado durante sete anos na Rodada Uruguai do GATT, que previa uma agricultura mundial livre de subsídios no início do próximo milênio, abrindo oportunidades fantásticas para os países em desenvolvimento, distribuindo melhor a renda mundial, reduzindo as disparidades entre as Nações e promovendo mais justiça social.

Resta a esperança de que, lá como cá, Jospin tenha um programa para ganhar o governo e outro para tocar o governo!