Agronegócio: O Balanço do Ano

Décio Luiz Gazzoni
O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Homepage: www.gazzoni.pop.com.br



Numa economia globalizada, tudo o que acontece de importante em um país, passa a ter reflexos em outros países. O exemplo mais didático ocorreu com o terremoto que percorreu todas as Bolsas de Valores do Mundo, no final do mês de outubro e início de novembro. Para quem lida com os negócios agrícolas, é muito importante estar atento ao que acontece nos principais atores do mercado internacional, para antecipar as oportunidades e desviar-se das ameaças. É importante ter em conta que 1997 está sendo um ano particularmente abençoado. Dos 197 estados soberanos (dos quais 140 signatários da Organização Mundial do Comércio), nenhum estará em guerra aberta com outro, embora cerca de 30 conflitos internos, étnicos, tribais ou religiosos estejam em curso, sem ameaçar a estabilidade mundial.

Com este pano de fundo, a economia mundial deve crescer este ano cerca de 4%. Será uma das maiores incorporações de bens em todos os tempos, coexistindo com uma das menores taxas de crescimento populacional, resultando em aumento líquido da renda per cápita mundial. O que significa mais renda para aquisição de produtos agrícolas. Parte desta saúde financeira pode ser creditada ao atual ciclo de negócios dos EUA -motor da economia mundial - porém é inegável a influência da Organização Mundial do Comércio, na ampliação das oportunidades de negócios entre os países.


A política e os agronegócios
Neste contexto é essencial estar atento às principais eleições dos próximos 12 meses. Após quase 20 anos de domínio conservador, os trabalhistas assumiram o governo do Reino Unido. As razões da vitória trabalhista repousaram no desgaste de um período prolongado de governo e a necessidade de tentar outras alternativas. Porém, o pano de fundo da campanha eleitoral foi a União Européia, e os impactos financeiros e comerciais que trará. A Inglaterra foi o país que melhor se preparou para uma competição globalizada, enxugando a estrutura governamental, efetuando as reformas necessárias, e vitalizando o setor privado para a competição. Porém, todo o ajuste tem o custo da impopularidade, e Margaret Tatcher e John Major pagaram o preço eleitoral de sua política de inserção da Inglaterra na modernidade.

O impacto nos parceiros comerciais
Atravessando o canal, o presidente Jacques Chirac dissolveu o Parlamento e convocou eleições, aproveitando sua posição ainda boa junto ao eleitorado, tentando garantir uma base parlamentar que lhe permitisse efetuar (com atraso) as reformas que a Inglaterra já efetuou. Precisava mesmo, vez que a França é hoje, entre os países líderes da economia mundial, um dos mais atrasados nos ajustes que lhe confiram competitividade no novo ambiente. Chirac cometeu um êrro histórico, que lhe custou a maioria no Parlamento e a forçada convivência com um primeiro ministro que é seu adversário político. E Helmuth Kohl prepara-se para mais um ciclo de governo na Alemanha, que ainda se ressente do custo da absorção da Alemanha Oriental, falida econômica e tecnologicamente. Na vizinha Argentina, o presidente Menen apostou nos ótimos índices econômicos de seu governo e perdeu. Contra todas as expectativas, a derrota governista nas eleições parlamentares provoca uma parada respiratória para repensar o futuro das relações multilaterais daquele país.

A eleição brasileira
Assim como nós estamos de olho nas mudanças políticas em outros países, o mesmo se passa no exterior em relação a nós. Obviamente que, dependendo do programa de governo que os eleitores venham a aprovar nas urnas, altera-se o cenário comercial para os produtos agrícolas brasileiros. No entanto, o peso específico do Brasil ainda é pequeno neste contexto. Mais importante que a conjuntura imediata, é a disposição dos governos do Primeiro Mundo, de cumprir na prática o compromisso que assumiram em 1994 de, no médio prazo, eliminar os subsídios à produção agrícola. Da decisão destes governos, depende em grande parte o futuro dos agronegócios brasileiros.


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Confraria do vinho
Bento Gonçalves, a capital brasileira do vinho tem agora uma Confraria do Vinho. Vai reunir conhecedores e apreciadores, para prestigiar a qualidade e a sofisticação do vinho nacional. Mais uma excelente iniciativa do Dr. Ormuz Freitas Rivaldo, ex-presidente da Embrapa.

Leilão da Lagoa da Serra
Retirada do patrimônio do Bamerindus e em poder do Banco Central desde abril, a empresa de inseminação artificial com 25 anos de atuação no mercado, vai a leilão no próximo mês. Com faturamento previsto para o ano em US$11 milhões, fruto da venda de 1 milhão de doses de sêmen, deverá estar disponível para quem tiver um cheque estimado em R$5 milhões.

Beleza no campo
Primeiro foi o MST que colocou suas musas no ar. Agora o é o "MCT" (Mulheres com Terra) que contra-ataca. A principal entrevista da revista A Granja de Novembro é com Carmem Hauschildt, com fazendas em Catanduvas e Laranjeiras do Sul. Loira e bonita, a artista plástica de 47 anos assumiu a administração das fazendas quando seu marido, engenheiro agrônomo, faleceu vítima de um ataque de enxame de abelhas. Para conferir.

Estoque de grãos em baixa
Com exceção do milho (5 milhões de toneladas), arroz, feijão, trigo e soja, ficarão zerados no primeiro trimestre do ano. O Brasil deverá ter os mais baixos estoques de grãos dos últimos anos no início da colheita da atual safra, em fevereiro. As importações brasileiras de arroz serão de 1,2 milhão de toneladas, e o feijão também será importado. Os estoques públicos de milho também deverão ser totalmente utilizados para complementar às necessidades de consumo no ano que vem, já que a primeira estimativa de safra da Conab previu uma redução de mais de 10% na produção do grão.

Irrigação com bambu
A irrigação é sempre um investimento pesado, especialmente por conta de tubulações e bombas, mas a Unesp desenvolveu um sistema em que as tubulações são substituídas por bambu. Isto reduz o investimento e facilita a manutenção: o material de reposição é colhido na própria fazenda! Os bambus fazem realmente o papel dos canos e tanto as conexões como os aspersores e a motobomba são os mesmos da irrigação convencional. A diferença é o tempo de duração do "encanamento", que é menor no caso do bambu.