Lições de Cabala


Adaptação dos escritos do Cabalista Rav Berg para a violência que estamos presenciando no Brasil e no mundo.


As coisas não são como parecem ser... ou são?

A Cabala nos ensina a examinar o que está por debaixo da superfície de nosso mundo: a ver o grande no pequeno, o fim no começo, e a essência espiritual oculta nos aspectos mais mundanos da vida diária.

A Cabala não nos ensina, todavia, a ver o bem no mal. A escuridão e a Luz não podem coexistir. Com relação à violência podemos escolher tirar aprendizado até mesmo dos acontecimentos mais tenebrosos, e viver de tal maneira que a escuridão seja substituída pela Luz. Podemos fazer esta escolha, e, de fato, é nossa responsabilidade fazê-lo.

O mundo mudou, e estas mudanças estão acontecendo em todas as dimensões de nossas vidas. Minha preocupação imediata aqui, no entanto, não é com os eventos geopolíticos em larga escala ou as complicações das relações internacionais. Em vez disso, vamos examinar as mudanças que são tão evidentes na maneira como falamos uns com os outros, e os assuntos a respeito dos quais nós falamos; a forma como nos sentimos nervosos e desconcentrados; a maneira como as atividades da vida parecem mais difíceis porque um resultado positivo parece ser menos garantido.

Na investigação dessas mudanças, permita-me referir de saída à idéia de que "tudo aconteceu tão de repente".

Porém a Cabala nos ensina que nada acontece de repente. A semente está sempre presente antes de aparecer a planta totalmente crescida, seja ela uma erva venenosa ou uma rosa perfumada. Se olharmos para trás, para o começo deste ano, ou para o ano passado, ou para o ano antes dele, será que seremos capazes de reconhecer as sementes que foram plantadas e que germinaram formando expressões malignas de energia negativa?

Ao fazer esta pergunta, quero re-enfatizar o fato de que não estou me referindo a nada que esteja numa larga escala dos assuntos humanos. Quando falo de sementes de energia negativa não estou chamando à memória algum acordo que possa ter sido quebrado ou qualquer ameaça terrorista que possa ter sido recebida ou cumprida. Em vez disto, gostaria de pedir que você examinasse os eventos de sua própria vida.

Pediria que você considerasse o que poderia ter feito de diferente para diminuir a presença da escuridão e para aumentar a força da Luz. Alguns acharão isto absurdo. Alguns perguntarão: "Como minhas ações podem ter contribuído para eventos completamente fora da minha esfera de influência? Como pode meu comportamento ter um impacto sobre vida e morte de pessoas que eu nem mesmo conhecia? É isto mesmo que os cabalistas nos dizem?"

E eu responderia que é precisamente isto que os cabalistas ensinam. O mundo como um todo não mudará para melhor até que cada um de nós aceite o fato que tudo o que fazemos é importante - principalmente caso pareça ser distintamente e inquestionavelmente sem importância. A literatura da Cabala tem uma abundância de histórias de pessoas que poderiam ter trazido a redenção final de toda a humanidade se somente tivessem realizado um único, pequeno e aparentemente insignificante ato de bondade e humildade.

Uma pessoa sábia é aquela que vê a verdade nessas histórias e vive de acordo. Para aqueles que duvidam desta verdade, eu invocaria um princípio da ciência contemporânea aceito de forma tão ampla que praticamente é preciso repetir: "o bater de asas de uma borboleta na China pode se amplificar, tornando-se um furacão em Kansas."

Será que podemos realmente aprender a aplicar este princípio nos assuntos humanos, e até mesmo nos pequenos assuntos humanos? Quando isto acontecer, o mundo será transformado. E até acontecer, teremos que enfrentar eventos do tipo deste que tanto nos perturbam agora. E mais, podemos ter que enfrentar esses eventos com um intervalo cada vez menor para nos recuperarmos.

Tentei acima expressar o ensinamento cabalístico de que tudo o que fazemos importa - que a lei de causa e efeito está sempre operante, e que pequenas causas podem gerar grandes efeitos. Existem alguns corolários importantes para este princípio que se aplicam diretamente ao período em que vivemos.

O tempo, explicam os cabalistas, existe por um propósito espiritual bastante fundamental. O tempo nos dá a oportunidade de exercermos o livre arbítrio. O tempo é o elemento em nossas vidas que nos permite, por exemplo, duvidar de que todas as nossas ações sejam importantes - porque a causa e o efeito são separados por horas, dias ou talvez anos. Se o tempo não existisse, se houvesse repercussões instantâneas e evidentes para tudo o que fazemos, os seres humanos poderiam realmente mudar seu comportamento de acordo, mas seria o tipo de mudança que ocorre sob uma ditadura militar ou um regime totalitarista. Um rato de laboratório que recebe um choque elétrico forte assim que toca num botão parará rapidamente de tocá-lo, mas isto dificilmente pode ser descrito como um exemplo de livre arbítrio. O comportamento é forçado, e não escolhido, em grande parte porque a causa e o efeito estão tão proximamente juntos no tempo.

Hoje, com o início do século vinte e um, iremos ver os intervalos entre causa e efeito diminuindo cada vez mais. Aproveitando o exemplo do rato de laboratório citado acima, poderia se esperar que sejam produzidas mudanças em nosso comportamento. Entretanto, as ações que precipitam os resultados - e que os precipitam cada vez mais rapidamente - não são tão óbvias quanto um animal apertando um botão. Deixe-me repetir: estamos sempre intensificando a escuridão ou revelando a Luz, não importando se estamos conscientes deste fato ou se o ignoramos. O que é novo em nossa época é que o processo está ocorrendo mais rapidamente que em qualquer época antes.

Favor notar que o assim chamado "efeito borboleta", invocado há um instante atrás, não faz nenhuma menção de quanto tempo levará para que uma asa batendo se torne um vento rápido. Inquestionavelmente, levará um bom tempo.

Mas suponha que milhões ou mesmo bilhões de borboletas batessem suas asas todas ao mesmo tempo. Suponha que este grande número de pequenas causas estivesse se combinando e se acumulando num ritmo cada vez mais alto. O furacão aconteceria mais cedo, e não mais tarde. Mas se o vasto número de participantes neste processo estivesse inconsciente de seus princípios operativos, a tempestade poderia muito bem parecer ter aparecido do nada.

A respeito disto, eu espero que a relevância em nossas circunstâncias presentes fique clara. Sempre foi um princípio da Cabala que o amor e o ódio, assim como a energia no mundo físico, nunca são perdidos. Energias positivas e negativas sempre se acumularam num nível de existência fora da dimensão material, e o efeito sempre se manifestou, assim como uma nuvem de chuva acaba por fim causando um dilúvio. O que precisamos compreender é a aceleração deste fenômeno. Nós precisamos entender que hoje até mesmo um pequeno ato ou intenção negativos pode causar o aguaceiro - não em algum ponto no futuro indefinido, mas cada vez mais perto no tempo. E nós nunca sabemos quem será o canal para este fenômeno. Nunca sabemos qual pequeno ato de malícia fará com que uma pessoa - alguém que já esteja no limite - expresse a negatividade que está congelada no plano metafísico.

Mas deixe-me também tornar bastante claro que nossas ações positivas podem ativar o mesmo processo: através de fazer o bem no mundo, especialmente nesta época de causa e efeito condensados, podemos criar Luz numa vasta escala, através do controle de nossas reações negativas, através de compartilhar e de se comportar com maior tolerância e compaixão. E podemos perceber estes resultados positivos quase que instantaneamente.

O Zohar descreve nossa época de forma profética e exata. Este é um período de "infortúnio e bênção" - uma época em que extremos de energia positiva ou negativa rapidamente se manifestam baseados nas escolhas que fazemos em nossas vidas.

Até aqui, discutimos a forma como o mundo mudou; a forma como participamos e temos responsabilidade por essas mudanças; e a forma como se pode esperar que a mudança, para o bem ou para o mal, venha mais rápida e de forma mais poderosa nesta era de infortúnio e bênção. Mantendo estes princípios em mente, vamos examinar os detalhes de nossa situação atual e perguntar diretamente o que causou com que dois aviões se chocassem com duas torres de escritórios num dia que, se não fosse por isto, seria um belo dia de outono.

Existem diversas respostas para esta pergunta. Num nível meramente físico, poderia se dizer que a causa foi a orientação dos aviões com respeito às torres - o fato de que o traçado de vôo dos grandes objetos em movimento se cruzou com a posição dos objetos estacionários ainda maiores. Mas isto, é claro, é uma descrição ofensivamente mecânica de acontecimentos humanos profundamente perturbadores. Dando um passo em direção ao confrontar desta dimensão humana, portanto, podemos nos referir à ênfase social, política e histórica que se expressam neste tipo de incidente destrutivo.

Uma grande quantidade dos escritos que surgiram a partir desses acontecimentos lidou com eles neste nível - e, de novo, há bastante verdade no que foi dito. Vale a pena dizer mais e mais vezes: toda vez que manifestamos ódio em nossas vidas, toda vez em que simplesmente temos uma intenção deste tipo de manifestação, ou apenas consideramos isto, somamos densidade e massa à grande acumulação cósmica de negatividade, e, assim sendo, nós mesmos partilhamos da responsabilidade pelo resultado.

Este também não é o ultimo dos ensinamentos da Cabala sobre o que resulta quando uma massa crítica de negatividade é atingida. No livro bíblico de Jó, os terríveis sofrimentos de um homem inocente são descritos com cuidadosos detalhes, e os conselhos que ele recebe de seus amigos também são reportados. "Bem, você deve ter feito algo errado", eles dizem a Jó, "porque coisas ruins não acontecem com pessoas boas. Coisas ruins só acontecem com pessoas que são pelo menos um pouquinho más elas próprias."

É desnecessário dizer, os supostos consoladores de Jó não eram cabalistas, porque isto não é de maneira nenhuma o que a Cabala ensina. O Zohar, por exemplo, não faz nenhuma tentativa de disfarçar o fato de que pessoas boas - indivíduos que não têm culpa em suas próprias vidas - podem ser destruídos junto com os perversos quando o campo de força da negatividade atinge um determinado poder. Vemos isto ocorrendo na narrativa bíblica, e nós também vimos isto na história registrada da raça humana, com o 11 de setembro sendo um dos casos em questão.

Se isto parece ser uma visão severa de que até mesmo indivíduos sem culpa podem sofrer numa época dominada pela energia negativa, eu, no caso, vejo isto como uma recusa clara de encobrir o fato de que pessoas verdadeiramente boas podem se machucar, e que, como indivíduos, eles não "atraíram isto para si próprios", de forma nenhuma. Eu enfatizei o como indivíduos, porque coletivamente a raça humana de fato atraiu "isto" para si própria. Coletivamente, a raça humana é a base de onde surge a negatividade - assim como o vapor se eleva de um campo, se condensa virando água, e mais cedo ou mais tarde cai de volta em seu lugar de origem.

Este entendimento exige que vejamos nossas vidas por duas perspectivas. Por um lado, precisamos estar conscientes da natureza coletiva da ação humana - e até mesmo da emoção humana - e de como sentimentos e comportamentos positivos e negativos persistem na dimensão espiritual. Devemos também compreender que essas massas de energia podem se tornar massas críticas, e conseqüentemente se manifestarem de forma muito poderosa, para o bem ou para o mal, no mundo material.

A capacidade de vermos a nós mesmos como uma parte integral e vitalmente importante de um todo maior não é algo que vem facilmente para a maioria das pessoas. O desenvolvimento deste ponto de vista é um passo importante no crescimento espiritual. Para a maioria das pessoas, perceber a vida como uma consciência simples e autônoma parece vir muito mais facilmente. Mas se estamos acostumados com a autonomia, também estamos acostumados com as dores, os medos e os impulsos autodestrutivos que uma identidade individual encontra quando confronta o mundo sozinha.

Os desafios que surgem, é claro, ficam especialmente em evidência quando o mundo passa por um período como o atual. Quero apresentar aqui um ponto muito importante. Até agora tenho me referido à Cabala primariamente como uma fonte de insight e compreensão não somente para os eventos do passado recente, mas também para toda a história humana. Por mais útil e importante que isto certamente seja, o insight não é o propósito ou o poder principal da Cabala. Seu verdadeiro propósito se encontra nos benefícios práticos, do dia a dia, que a Cabala pode trazer para nossas vidas.

A Cabala não deve ser entendida como uma série de charadas e soluções intelectuais, não importando o quanto elas possam parecer fascinantes. Também não deve ser entendida como uma coleção de insights, nem tampouco de insights muito profundos. Na verdade, a Cabala é o conjunto de ferramentas espirituais que o Criador proporcionou à humanidade. Em última instância, o objetivo destas ferramentas é remover o caos, e também produzir a alegria e a plenitude que são o direito de nascença da humanidade. Este é o nosso verdadeiro destino.

Ele se realizará quando o merecermos - talvez amanhã, ou talvez após muitas vidas mais. Mas seja como for, as ferramentas da Cabala também podem nos trazer força e proteção imediatamente. Este ponto criticamente importante fica perdido para todos que descobrem na Cabala nada além de um exercício intelectual. Se isto é tudo o que eles encontram, é porque isto foi tudo o que procuraram.

Se você viesse a mim hoje para compartilhar seus sentimentos de medo e de vulnerabilidade, eu muito rapidamente faria uma sugestão simples: abra um volume do Zohar e deixe que seus olhos repousem sobre a página. Será que eu faria uma sugestão deste tipo para uma pessoa assustada esperando que ele ou ela fosse aprender alguma coisa? Da mesma maneira, por acaso eu ofereceria a explicação de uma equação matemática obscura em resposta a um grito de socorro? Dificilmente isto estaria de acordo com meu trabalho como um mestre espiritual. Em lugar disto, eu "receitaria" o Zohar da mesma forma como um médico experiente dirigiria um paciente para um recurso poderoso para curar a doença e prevenir mais dor.

O Zohar é uma conexão, um condutor, um canal para a Luz do Criador, que é a fonte última de tudo o que existe de positivo em nossas vidas. Mas acima dos benefícios que ele nos dá, o Zohar e as outras ferramentas da Cabala também nos proporcionam o poder de dar para os outros. A Cabala, portanto, existe não somente para mudar nossas idéias ou percepções. Ela altera toda a nossa consciência, através de transformar o desejo de receber somente para nós mesmos num desejo de receber com o objetivo de compartilhar.

Se você está amedrontado, as ferramentas da Cabala podem amainar seus temores. Se você está ferido, a Cabala pode aliviar sua dor. Se você se sente incapaz de ajudar a si mesmo, quanto mais de ajudar a qualquer outra pessoa, a Cabala pode lhe dar forças não somente para seu uso, mas também para que você compartilhe.

Estas páginas começaram com a observação de que as coisas não são como parecem ser. Nós já exploramos diversas ramificações desta idéia. Para concluir, quero agora confrontar diretamente o fato de que, para muitas pessoas, as coisas no momento parecem bastante desgraçadas. Para que as coisas apenas pareçam ser uma desgraça, ao invés de o serem de fato, a responsabilidade é nossa.

A Cabala, conforme discutimos, não ensina que a tragédia é uma bênção disfarçada. A melhor maneira de atingirmos isto é nos tornando seres humanos mais amorosos e que compartilham.

Por que esta é a melhor maneira?

Como vimos, não é unicamente por causa de quaisquer benefícios que venham a aflorar para nós ou para os que estão ao nosso redor, embora isto certamente seja importante. É na dimensão mais ampla, todavia, que o verdadeiro tributo se expressa. Lembre-se: nenhum amor, nenhum ato de compartilhar verdadeiro, nenhum pensamento ou sentimento benevolente por outro ser vivo jamais é perdido.

Tampouco se perdem quaisquer atos ou intenções negativos, mas este não deve ser o nosso foco agora. Neste momento, vamos cortar todas as conexões com a dúvida e a destruição.

Ao vivermos nossas vidas como seres de compartilhar e de amor, fazemos mais do que honrar as milhares de vidas que foram perdidas. Podemos contribuir para o poder total do bem no mundo, podemos substituir a escuridão pela Luz, e nesta era de "infortúnio e bênção" nós podemos merecer as bênçãos do Criador para nós mesmos e para toda a humanidade.

Fonte: http://www.kabbalah.com/portuguese/index.php/p=life/sep11