2. A cidade

A cidade não me deve nada. A ela me ligo por livre e espontânea vontade. Ela jamais se recorda que sempre sonhei dela fazer parte. Caminhar sobre suas calçadas alegrando-me pela perspectiva de encontrar o objeto inusitado, perdido por um apaixonado qualquer. Encarar o mosaico de seu piso de uma forma totalmente pessoal na operação de amarrar os cordões dos sapatos. Não sem antes ter a noção exata do ponto da geometria do piso em que o pé havia pousado. Fazem parte do que considero desejo à espera de ser satisfeito. E que tudo isso ali ficaria eternamente, independente de vozes e sentimentos que a ela fossem dirigidos.

À noite a cidade de veste do mistério que lhe compete. Miríades de vozes, produzidas na rua dos meus sonhos, me levam a indagar de mim mesmo se não retornaria jamais o dia em que fossem capazes de intrigar todos aqueles olhares ansiosos destinados gratuitamente ao traçado das ruas, praças, edifícios, obeliscos, à complexidade de suas cores, com a intenção de desvendar a pantomima porventura encenada. Principalmente ao se chegar a ela pela primeira vez, ilustre desconhecida e objeto de toda admiração, e quando se encara toda sua geometria nunca divorciada de uma fome de estética, nunca satisfeita. Sob a influência das vozes, sob a mesma indiferença, pensamentos acabam se tornando parte integrante dos próprios edifícios e obeliscos ensaiando onírica encenação na tarefa de se despojar da angústia que de mim se desprende e neles reflete ante a expectativa de demonstrar o quanto de ousadia tal iniciativa representa.

Posso até me deixar levar pela maré de reflexão que me invade: quando caminhamos lado a lado por essa rua lúgubre e despojada de encanto, eu e todo esse elenco de fenômenos, parte de meu sonho e de minha saudade sente-se satisfeita. Recupero a lucidez que só o sonhar é capaz de resgatar. Desperta em mim a curiosidade do porque a criatividade ditada por uma cidade convencional pode nos levar a crer que somos mais sentimentais do que imaginamos ser. E amamos mais do que o minúsculo coração que possuímos é capaz de suportar.