Este artigo foi originalmente publicado por Envolverde/Terramérica.
A autora é a ambientalista e vice-ministra do Meio Ambiente do Quênia,
Wangari Maathai. Ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz 2004.


Cuidar do meio ambiente é vital
para erradicar a pobreza


 

O futuro da África está novamente na agenda mundial. As Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM), estabelecidas pelas Nações Unidas, são uma das iniciativas com as quais se está enfrentando o drama africano. Entretanto, o papel essencial do meio ambiente ainda é marginal nas discussões sobre a pobreza. Enquanto continuamos discutindo essas iniciativas, a degradação ambiental, incluindo a perda de biodiversidade e da camada de húmus está se acelerando, o que faz desfalecer os esforços em favor do desenvolvimento. Sem uma melhor administração dos recursos naturais, as MDM, sobretudo a eliminação da pobreza, podem não passar de um sonho.

Meu próprio país, o Quênia, é um bom exemplo disso. As selvas do Monte Quênia, na linha do Equador e na cordilheira Aberdare, são a fonte de centenas de correntes de água que confluem no rio Tana, o maior do país, que proporciona água potável a milhões de quenianos. As selvas servem como depósitos que armazenam água da chuva em reservatórios subterrâneos. Muitos setores, incluindo o industrial, agrícola, turístico, a pecuária e o energético, dependem destes depósitos de água. Há 60 anos, as montanhas foram desmatadas e as variadas espécies selvagens substituídas pelo monocultivo de pinheiros e eucaliptos utilizados para fins comerciais. Para manejar o baixo custo dessas plantações, a administração introduziu o sistema shamba, pelo qual se permite aos camponeses cultivarem plantas de uso alimentar entre as árvores em crescimento.

Ao mesmo tempo em que cuidam de suas colheitas, os camponeses cuidam dos pinhos e eucaliptos, o que significa uma redução dos custos de plantação. Mas este sistema destrói a capacidade das florestas de fornecer elementos decisivos para sua própria sobrevivência e para seus habitantes, tais como repor os níveis de água subterrânea, sustentar o volume de água dos rios, criar o habitat de uma extensa série de seres viventes e regular a queda de chuvas. Lamentavelmente, estes problemas provocados pelo sistema shamba nem sempre são bem compreendidos. Depois de muitos anos de maus-tratos das selvas a biodiversidade desaparece, os rios secam, as inundações se tornam freqüentes, aumenta a erosão do solo, a terra sofre degradação, aumenta a desertificação, as chuvas diminuem e cai a produção agrícola.

Os produtores em pequena escala têm de trabalhar em terras degradadas. Para eles, a fome é um fenômeno comum. Essas condições sufocam as perspectivas de erradicar a extrema pobreza e a fome e de reduzir a mortalidade infantil, e também todas as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Sob tão inquietantes condições, as comunidades mostram quadros típicos de desespero. Tudo isso pode ser evitado se os recursos florestais forem aproveitados de maneira mais sustentável. Este ano no Quênia as chuvas prolongadas foram tardias e leves, o que impediu muitos camponeses de semearem suas terras. Três milhões de pessoas, quase 10% da população, dependem agora da ajuda alimentar do governo. Cerca de 60% da população queniana é rural e a maioria ainda ganha a vida com a agricultura.

Desaparecidas as selvas, nada resta para impedir a erosão do solo e a perda maciça do húmus. Isto, combinado com os baixos níveis dos cursos de água e a grande quantidade de terra acumulada nos diques ao longo do rio Tana, desafia a capacidade do governo para gerar suficiente energia proveniente das represas hidrelétricas. O Quênia tem de comprar energia elétrica de países vizinhos para expandir a eletrificação rural e o desenvolvimento industrial. Deve-se sacrificar outras prioridades vinculadas ao desenvolvimento, tais como o combate contra o HIV/aids e outras enfermidades e a melhoria da saúde materna. A escassez de eletricidade também faz com que as pessoas pobres utilizem carvão vegetal para fornecer energia, o que provoca um futuro desmatamento e limita as perspectivas de alcançar a meta de número sete do milênio, que busca assegurar a sustentabilidade ambiental.

Finalmente, a destruição das florestas do Quênia também prejudica o turismo, importante fonte de divisas. Ao ser afetado o habitat dos animais selvagens, estes buscam comida e água em outras áreas e, freqüentemente, morrem vítimas de caçadores ilegais ou de pessoas que defendem a si mesmas ou protegem seus meios de sustento. A organização que fundei, a Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde), lançou um projeto-piloto em sociedade com o governo queniano para restaurar florestas degradadas e proteger terras com vegetação e árvores nativas. As mulheres locais estão fazendo estufas de árvores indígenas e plantando-as nas florestas de Aberdare.

Para cada planta, cada mulher ganha cerca de US$ 0,35. Este dinheiro pode ser usado para uniformes escolares, alimentos nutritivos e cuidados sanitários com elas e seus filhos. A África está atrasada em relação a outras regiões quanto aos progressos para concretizar a Metas de Desenvolvimento do Milênio. Se não reconhecermos que o cuidado do meio ambiente é fundamental para um desenvolvimento sustentável e para acabar com a pobreza corremos o risco de não conseguir nenhuma dessas metas e de degradar o recurso básico do qual depende o desenvolvimento futuro.


*Wangari Maathai é ambientalista e vice-ministra do Meio Ambiente do Quênia. Foi ganhadora do Prêmio Nobel da Paz 2004

Este artigo foi originalmente publicado por Envolverde/Terramérica (www.envolverde.com.br)